O sergipano que transformou a educação em um projeto de alcance nacional
Há mais de uma década, um sonho nascido da inquietação de um sergipano se transformou em uma das mais bem-sucedidas iniciativas de apoio à educação no Brasil. Fundado por Samuel Guimarães e um grupo de ex-alunos da Universidade de São Paulo (USP), o Projeto Gauss já ajudou centenas de jovens de escolas públicas a conquistarem vagas nas principais universidades do país, tornando-se referência pela metodologia que alia reforço escolar, mentoria, apoio psicológico e acompanhamento das famílias.
Neste sábado (18), Aracaju recebe o Encontro Nacional da Família Gauss, evento que celebra os dez anos de atuação do projeto em Sergipe. A iniciativa reúne estudantes, familiares, voluntários, parceiros e patrocinadores para apresentar os resultados alcançados e compartilhar os próximos passos da organização, que prepara uma nova fase de expansão para escolas públicas da cidade de São Paulo.
Nesta entrevista ao site Paula Toquinho, Samuel Guimarães fala sobre a criação do Projeto Gauss, a importância de Sergipe nessa trajetória, os desafios de democratizar o acesso ao ensino superior e os planos para ampliar ainda mais o impacto da iniciativa.
1. O Projeto Gauss nasceu da iniciativa de um grupo de ex-alunos da USP. Como surgiu essa ideia e qual foi a sua motivação para criar a iniciativa?
Nós tivemos um privilégio que nem sempre percebíamos. Nascemos em famílias que puderam investir na nossa educação e tivemos a oportunidade de estudar em uma universidade pública de excelência, a USP.
Na nossa formatura em Engenharia, olhamos ao redor e percebemos uma ausência que nos marcou profundamente: quase não havia jovens de escolas públicas ou de famílias de baixa renda entre os formandos. Sabíamos que o problema não era falta de talento. Era falta de oportunidade.
Naquele momento entendemos que muitos jovens brilhantes nunca chegariam até ali simplesmente porque não tiveram acesso à preparação adequada.
Aquilo nos pareceu profundamente injusto.
Foi então que decidimos deixar a indignação de lado e agir. Reunimos um grupo de amigos e começamos o Projeto Gauss com um propósito muito claro: garantir que o talento, e não a condição econômica, seja o fator que determine o futuro de um jovem.
2. Você é sergipano. O que representa celebrar os dez anos do Projeto Gauss justamente em Sergipe, seu estado de origem?
Tem um significado muito especial. É como voltar para casa e perceber que um sonho plantado há dez anos floresceu exatamente onde tudo começou para mim.
Celebrar essa década em Sergipe é mostrar que grandes histórias podem nascer em qualquer lugar do Brasil.
Tenho muito orgulho de ver o impacto que construímos aqui e de saber que Sergipe se tornou uma referência dentro do Projeto Gauss.
3. Em uma década, quais foram os principais resultados alcançados pelo projeto em Sergipe e quais histórias mais marcaram sua trajetória?
Os números mostram a dimensão desse trabalho.
Hoje já apoiamos 98 jovens em Aracaju, alcançamos 68 aprovações em universidades, formamos 15 gaussianos, sendo 12 médicos, e temos uma taxa de aprovação de aproximadamente 81,5%.
Mas o que realmente nos emociona são as histórias.
Temos muitas, mas vou citar 2 graduados. O Antonio Lima, o Tonhão, de Itaporanga d’Ajuda, que se formou em Medicina pela Faculdade Santa Marcelina em 2025 e hoje faz residência em Medicina de Emergência na USP de Ribeirão Preto.
Outro exemplo é o Yuri, de Muribeca, um dos primeiros gaussianos de Sergipe. Ele se formou em Medicina pela Universidade Federal de Sergipe e hoje atua como médico plantonista no SAMU, cuidando da população sergipana.
Essas histórias mostram que a transformação vai muito além da aprovação. São jovens que hoje devolvem para a sociedade tudo aquilo que receberam.
4. O Projeto Gauss registra um índice de aprovação de cerca de 80% nas universidades mais concorridas do país. Qual é o diferencial da metodologia adotada?
O nosso diferencial é entender que aprovar um jovem no vestibular exige muito mais do que oferecer um bom cursinho.
Nós acreditamos na força da educação de qualidade e, por isso, fazemos parceria com instituições de excelência, como o Curso Master, em Sergipe.
Mas isso é apenas uma parte do trabalho.
O Gauss oferece 100% de bolsas de estudo em cursinhos de excelencia, mentoria individual, orientação pedagógica, apoio psicológico, orientação vocacional, aulas de reforço, plataformas de aprendizagem e apoio financeiro.
Tudo isso acontece de forma muito personalizada.
Porque muitos dos desafios que nossos estudantes enfrentam estão fora da sala de aula: ansiedade, dificuldades financeiras, falta de referências profissionais ou problemas familiares.
Quando o jovem percebe que existe uma rede inteira acreditando nele, sua autoestima cresce, sua confiança aumenta e seu desempenho melhora.
O vestibular é o caminho. Nosso objetivo maior é formar jovens autônomos, emocionalmente preparados e capazes de construir uma trajetória de sucesso.
5. A Medicina aparece entre os cursos mais escolhidos pelos alunos atendidos. Como o projeto trabalha para mostrar que sonhos considerados distantes podem se tornar realidade?
Primeiro mostramos exemplos reais.
Nossos estudantes conhecem gaussianos que vieram das mesmas escolas públicas e hoje estudam ou já se formaram em Medicina na USP, Unicamp, UFS e em outras grandes universidades.
Quando um jovem percebe que alguém com uma história parecida conseguiu, aquele sonho deixa de parecer impossível.
Depois oferecemos as condições para que ele possa competir em igualdade: bolsas integrais, preparação acadêmica, mentoria, apoio psicológico e acompanhamento contínuo.
O sonho deixa de ser uma ideia distante e passa a ser um objetivo concreto, construído diariamente com disciplina, dedicação e apoio.
6. O encontro em Aracaju também marca uma nova etapa do Projeto Gauss, com a expansão da metodologia para escolas públicas de São Paulo. Como surgiu esse novo desafio e quais são as expectativas?
Percebemos que um dos maiores desafios da educação brasileira está no Ensino Médio público, etapa em que muitos jovens abandonam os estudos ou deixam de acreditar no próprio potencial.
Por isso, aprovamos um projeto-piloto pelo FUMCAD voltado para estudantes do Ensino Médio de escolas públicas.
A proposta é acompanhar esses jovens durante os três anos dessa etapa, oferecendo reforço em Matemática, Português e Redação, mentoria, orientação vocacional, apoio psicológico, atividades culturais e acompanhamento pedagógico.
Queremos chegar antes do vestibular.
Ajudar esses jovens a desenvolver repertório, confiança e autonomia para que possam construir seus projetos de vida desde cedo.
7. Quais são hoje os maiores desafios para manter e ampliar um projeto social de educação com atuação nacional?
O maior desafio é garantir sustentabilidade.
Projetos como o Gauss dependem da união entre voluntários, empresas, instituições de ensino e pessoas que acreditam na educação como instrumento de transformação social.
Outro desafio é crescer sem perder aquilo que sempre foi nossa principal característica: o acompanhamento individual de cada jovem.
Queremos ampliar nosso impacto, mas mantendo a qualidade, o acolhimento e a proximidade que fazem parte da identidade do Gauss.
8. Na sua avaliação, qual é o papel da iniciativa privada e da sociedade civil na transformação da educação brasileira?
É um papel absolutamente fundamental. A transformação da educação não pode ser responsabilidade exclusiva do poder público.
Quando empresas, universidades, fundações, profissionais voluntários e organizações da sociedade civil trabalham juntos, conseguimos ampliar oportunidades e reduzir desigualdades.
O Projeto Gauss é um exemplo concreto de que essa união gera resultados extraordinários.
Educação é responsabilidade de toda a sociedade.
9. Que conselho você daria aos jovens sergipanos da rede pública que desejam ingressar em universidades de excelência?
Nunca permitam que a realidade de hoje determine o tamanho dos seus sonhos.
O lugar onde você nasceu não define onde você pode chegar. Estudem com disciplina. Peçam ajuda. Procurem pessoas que possam orientá-los. Acreditem no próprio potencial.
Existem centenas de jovens que já percorreram esse caminho e provaram que é possível. Cada dia de dedicação aproxima vocês do futuro que desejam construir.
10. Para encerrar, qual legado você espera deixar para as próximas gerações por meio do Projeto Gauss?
Espero que o maior legado do Projeto Gauss seja mostrar que talento não tem endereço, renda ou CEP.
Queremos que cada jovem compreenda que a educação é capaz de transformar vidas, romper ciclos de pobreza e criar oportunidades para famílias inteiras.
Mas existe um legado ainda maior. Queremos formar pessoas que, no futuro, também estendam a mão para outros jovens.
Porque o verdadeiro impacto acontece quando quem recebeu uma oportunidade passa a criar oportunidades para os que vêm depois.
Mais do que aprovar estudantes nas melhores universidades, queremos formar cidadãos comprometidos em transformar o Brasil.
“No Projeto Gauss, acreditamos que talento é universal. O que ainda não é universal é a oportunidade. Nossa missão é diminuir essa distância.”
Samuel Guimarães
Sergipano, Fundador Associação Projeto Gauss















